Em Algum Momento Tivemos Paris

Não tenho certeza como os roteiristas de comédias românticas começam seu trabalho. Será que todes acreditam no amor ou na paixão? Em destino ou o que quer que seja a explicação pro casal da trama da vez ficar junto?

Uma jovem que foi parar, meio sem querer, na França. Emily aonde? Quem vai pra Paris? Se minha vida fosse uma comédia romântica, seria dessas que se passam no final do ano. Uma mistura de história natalina tragi-romântica. Um mix de Simplesmente Amor e 500 dias com ela (apenas pelo fim, não pelo tempo).

Em uma Europa de 2010, onde os smartphones ainda estavam em ascensão, estávamos migrando do Orkut para o Facebook e não era inimaginável sair do Brasil, fui morar na França. Precisa de resumo? 

Papi foi transferido no mesmo ano que me formei no colégio. “Você prefere ficar no Rio e fazer faculdade ou vir morar esse ano na França comigo?” Beijos, PUC, te vejo ano que vem. De mala e cuia, vamos nos aventurar na cidade luz, no país de Napoleão, na capital do amor. E sem falar uma palavra de francês. Merda. Ou merde, essa é fácil traduzir. 

Morei em Rouen. Se pronuncia (quase) que nem o nome Juan. Não, não é no México. É a cidade onde Joana D’Arc foi morta. Inclusive é bem fácil lembrar disso quando a normândica cidade comporta a Avenida Joana D’Arc, que desemboca na Praça Joana D’Arc, onde encontra-se a Catedral da Joana D’Arc. 

Machado de Assis já estaria cansado de tanta descrição. Vou me ater ao fatos então. Neste sabático ano, não fiquei de pernocas para o ar. Embarquei na aventura com meu par de All Star favorito. Curso de Maquiagem Artística. Isso significa que toda volta pra casa, estava montada.

Ah, o glamour… estórias pra bar, ou pra uma uma próxima postagem, o resumo da ópera era que o curso ficava em Paris, então pegava o trem todos os dias. Uma horinha de viagem, menos que da Barra pra Niterói.

Em um retorno à Rouen, e toda trabalhada no olho esfumaçado com coque no cabelo (que estava imundo, aprendi direitinho com os franceses), sentei em um vagão vazio. Ouvi minhas playlists do iPod Classic 64GB (pára que ela tava rica), enquanto jogava cobrinha no Nokia (cancela riqueza, pega nem bluetooth). Até que ouço o anúncio: ih, minha estação é a próxima.

PLUFT! (insira aqui onomatopéia de um papelzinho sendo jogado em um acento fofinho)

Que cara ridículo, jogou o bilhetinho usado do metrô em qualquer canto, vou jogar fora. Opa, tem um nome e número aqui. 

TELA AZUL (ouça aqui o áudio de tilt do windows)

Ele não era…. Um porco? Ele foi, rô…. roman…. Caceta, só com um própolis. Romântico? Aconteceu? 

Corta para: euzinha saindo do trêm e voltando para casa ao som de alguma música empoderada da Beyoncé que nem importa qual porque estava me sentindo a última Coca-Cola do deserto e Bey não é rainha à toa e todas as músicas podem te empoderar. Isso mesmo, sem pausa pra respiro. 

Foi tão legítimo quanto qualquer clichê de comédia romântica. Não era fake news, eu (em bold, pra reafirmar) havia recebido um nome e número de telefone pensados orquestradamente para caber em um pequeno bilhetinho de metrô.

E ai? O que fazer com o tal papelzinho inundado de um mundo de informações? Maldita seja a internet tão limitada na época que não me possibilitava stalkea-lo de forma obsessiva. 

O tempo passou, e como passou. Mais que dias e semanas, entramos em meses de reflexão. O que fazer com o bilhetinho? Não há palavra que sei para iniciar uma interação.

– Salut – pausa.

Sabe a expressão “mente vazia, oficina do diabo”? Acho que ela cabe perfeitamente nessa situação. Depois de muito matutar, conclui: YOLO – you only live once. Ou no português arcaico: FODA-SE.

O que eu tinha a perder? Quanto tempo mais estaria lá e poderia viver algo do tipo? O que era o pior que podia acontecer? Ele se mostrar um serial killer que ia sumir com meu corpo e ninguém nunca ia descobrir o paradeiro, pois escondi o bilhetinho do metrô nos confins da minha carteira?

– Salut! – enviar.

Gostaria de afirmar que o diálogo transcrito aqui é inteiramente traduzido em prol de meus leitores, mas a realidade é que não tenho francês suficiente pra repassar tudo que aconteceu, ainda mais porque fora com um auxilio inigualável do Google tradutor.

– Quem é?

– Você joga seu número pra mulheres e nem sabe quem é?

– A menina do trem?

– Eu mesma.

Eu tremia a cada plim que meu celular fazia? Com certeza. Estava passando uma falsa segurança? 200% de certeza a mais. Mas o flerte era irresistível – mente caro: naquela época tinha que pagar por cada SMS enviado. Creio que existe um je ne sais quoi a mais por isso, e era pago em euro.

Poderia dizer então que o papo começou, mas a verdade é que nosso vocabulário em comum era mais limitado que bolsominion que teima em deixar o nariz pra fora da máscara em plena pandemia. 


Ele queria me ver. Parecia querer bastante inclusive. E como eu queria me esconder, tal qual uma Ema que foge da cloroquina. A vergonha  e o nervosismo de ser uma jovem mulher desejada por um gringo em um país desconhecido era demais pra mim. Fugia, me escondida, mentia, ignorava, lia depois. Pulava vagões, inventava desculpas, pegava ruas diferentes. 

Até que um dia o vi do lado de fora da estação me esperando. Não parecia tão amedrontar assim, na real, tinha aquela vibe europeu magrelo. Tampouco era alto, o que me dava uma vantagem, caso precisasse me defender. Deveria ser cômico, se não fosse trágico, precisar pensar assim.

“Minha mãe precisa de mim.” QUE? Nem eu mesma entendo a fajuta desculpa. Amanhã então? QUE DE NOVO? Aconteceu. Aconteceu? Pois é, leitore, aconteceu. 

Horários atualizados da rota Rouen – Paris (2021 – site SNCF)

Diariamente pegava metodicamente o trem de 7:59 (aos agostinianos, um horário bem de prova do Bacchim). Ele pegava 1h antes. Mas faltando 1 minuto inteiro para 8 horas ele estava ali, na minha estação, na mesma plataforma, esperando o trêm intercité, me buscando entre rostos enrolados por cachecóis e gorros do frio que estava começando.

Eu… me rendo? Me rendi. Era isso. Independência ou morte. Acho que copiei a citação errada. AH, VAMOS NESSA. Parece mais legitima. Dava um rim por um refrigerante de laranja, um dicionário de francês e uma fada madrinha que me desse um Rivotril, um shot e um 2, pra que sobrevivesse ao trajeto que ia mexer tanto com meu emocional.

Reter-me a detalhes parece tão supérfluo depois de superado. Tivermos um affair, com todo o poder que a palavra pode trazer. Uma paixão voraz, intensa e temporária. Um carinho sem verbos, um amor sem textos. Semanas de olhares que falavam tudo. Dias de um sentimento ávido, leviano e temporariamente verdadeiro. 

Até que ele sumiu. 

Hoje em dia tem uns termos chiques que nem sei reproduzir. Talvez nem saiba explicar o que senti. Reavendo meu passado reflito sobre o primeiro caso de depressão. Aquele afogamento numa lagoa de solidão, abandono e incompreensão. A impossibilidade de expressar sentimentos que nem você mesme consegue entender, só consegue sentir de forma dolorosa.

Por que sumiu? Eu errei? Foi minha culpa? Injusto seja o sentimento de dúvida. 

Até que continuei, porque a vida é assim né? A gente meio que só continua. E o tal do tempo? O tempo passou, e como passou. Mais que dias e semanas. Mais que semanas, contagens regressivas para retornar ao Brasil. 

A ciência explica? A gente exala algum tipo de feromônio? Algum cientista, filósofo, religioso ou que seja vem aqui então explicar o por quê. Por que ele voltou? Por que ele reapareceu?

PLIM 

– Salut.

Eu deveria ter mandado ele enfiar esse olá onde o sol não bate. Mas essa história não é atual. Não é empoderado nem feminista. Não é sobre uma moça que se descobriu e conquistou o mundo. É sobre uma menina que chorou com uma mensagem, respondeu quase instantaneamente, viveu mais poucos dias de um romance inusitado e após 10 anos continua mantendo alguma forma de contato com o tal.

A ultima mensagem nem tem tanto tempo. 

– Se um dia você voltar a Europa, eu te encontro aonde for. – essa já foi pelo modernoso Instagraam.

Parece lindo, romântico e predestinado. Escrito nas estrelas.

Por alguém que talvez não soubesse escrever. 

Pois além e apesar de tudo, a verdade é que não existe história de amor que resista a um simples fato: ele é um europeu antivax

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