Você escreve e eu faço o desenho

Aos 29 anos você já aprendeu algumas coisas sobre a vida. Nem tantas, mas acumulou algumas experiências pelo caminho. Um zero numa prova, um coração partido, uma bebedeira descontrolada, uma vida talvez universitária, uns empregos ou estágios. Frustrações, alegrias, sentimentos diversos. Mas como explicar a dor tão cedo?

Tô há dias tentando fazer com que as coisas tenham nexo, pra que consiga colocar no papel. Mas caramba, não sei como fazer tudo ter sentido. Parece de mentira, um pesadelo real demais pra aceitar. Ninguém tá pronto pra isso, ainda mais antes dos 30. E eu bem sabia que seria uma idade traumática. 

Já passei pela perda, pelo luto, pelo sofrimento saudoso de alguém. Jamais dessa forma, o que faz com que esteja tudo meio confuso aqui dentro, não tenho certeza do que sentir. 

Mais que sofrer, participar do sofrimento de um amante, sem bobeiras, no fundo de tudo que a palavra traz: aquelx que você ama. Como ser boia em um resgate? Como ser força sem músculos? Google, religiões, filosofias ou seitas, alguém me ajuda a ajudar. Há de ter algo que faça com que consiga absorver essa dor pra que tu não possas mais sentir. 

Não ligo pro que sinto agora, perdeu a importância. Queria escrever um texto pra ele, mas acho que tá difícil. Queria escrever um texto pra você, mas ainda não encontro palavras. 

Lembro da última vez que nos vimos. A gente já tava bêbada. Ele tinha acabado de voltar do trabalho. Que puta trabalho, com a licença do uso do francês. Nesse dia eu li uma carta que abalou umas estruturas. Me fez refletir várias coisas, inclusive invejar não ter feito o mesmo. Poxa amiga, você podia ter me dado essa dica. 

Era um texto de 15 anos atrás, de você para si mesma, perdido dentre as folhas de um anuário do colégio. Quanta bobeira tinha escrita ali. No anuário, a carta era impecável. Quando achamos, pedi pra ler, falta ainda 1 ano pra sua vez. 

Então hoje decidi que também não consigo escrever pra você. Quer dizer, quase. Não agora. Não de agora. Quero ponderar, refletir e comentar com a escritora desses sonhos de lá de trás. 

Para Clara de 12 anos atrás: 

Hoje pesquisei o significado do seu nome, você já fez isso? Quer dizer brilhante e iluminada. Doce, sensível e muito amável. Parte de mim quer concordar, a outra quer dar uma gargalhada com o doce e amável. 

Doce? Você é tapa na cara, é sinceridade, realidade e franqueza. Vish, agora que percebi o quão fundamental isso virou na minha vida. Obrigada. 

Minha ruiva de 15 anos, quero te contar umas coisas, senta aqui com a tia. Você vai passar por uns perrengues, a vida dá umas rasteiras inesperadas. Algumas a gente bebe e esquece, dá até umas risadas porque viram uma boa história. Outras são história que, te garanto, eventualmente se transformam numa deliciosa risada. 

Quando a gente chegar no ensino médio, vamos zerar algumas provas. Meio ponto vira motivo de celebração. Putz, parecia a pior coisa do mundo reprovar na época né? Quem dera fosse. Jamais teria uma matéria anotada no caderno de biologia sem você. Nem preciso falar da companheira borracha da prova de literatura que me ensinou cachorro + rádio.

Ainda assim, a gente conseguiu. Inclusive é necessário reafirmar que juntas. Você tava ao meu lado o tempo todo. Das inúmeras aulas particulares e piadas internas, aos dolorosos términos de relacionamento e besteiras que a gente faz na night. 

Nossa, Clara de 15 anos, quero agradecer por você nunca ter saído do meu lado. A distância nunca importou, os continentes, cidades, distritos, municípios, faculdades, choppadas, grupos sociais, crises, problemas, depressões, superações, a gente sempre tava lá. Juntas. 

Minha doce e sensível iluminada, quero pedir que troquem esses adjetivos para forte, parceira e única. Obrigada por estar há tantos anos ao meu lado. Toda a cumplicidade é recíproca.

Mais cedo falei pra sua mãe o quanto ela arrasou criando moça tão intensamente fortificada. Os últimos dias só pude compartilhar o quanto gostaria de poder absorver a dor de agora. 

Minha amiga, meu amor, minha comparsa, a vida não te preparou pro que tá por vir, mas posso te contar um segredo? Ela te muniu com um exército de apoio. E se tenho uma posição, é de general. 

Não quero te contar, até porque ainda não entendi muito bem o que foi. Apesar do que estiver no caminho, estou junto pra te ajudar nos tropeções. Com o joelho ralado e o corpo cansado, sigo sempre do seu lado pra te dar a mão em qualquer percalço. 

Toda vez que paro pra pensar, lembro de mais coisa que gostaria de te dizer, mas ainda não inventaram palavras pra expressar tudo. Até lá apenas resumo com um te amo. 

Com toda a admiração que eu consigo transpor, sua deliciosamente física. 

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